Capítulo
1
“Vá lá Reyna, despacha-te! Estou mesmo a ver que vamos
chegar outra vez atrasadas à tua pala, como sempre.” Reclamou a Jade pela
milionésima vez enquanto eu tentava desfazer os embaraços do meu cabelo
castanho ondulado à pressa com os dedos e olhava-me de forma
avaliadora ao espelho da casa de banho.
“ Podes ter a certeza que não é a pôr-me com ainda mais
pressa que fico despachada de vez. E alias, eles de certeza que já sabem que
vamos chegar atrasadas, por isso acalma-te rapariga!” Gritei pela porta
enquanto olhava-me pela última vez ao espelho para ter a certeza que estava
tudo bem. “ Vamos, vamos, vamoooos.” Disse, entrando disparada na sala e agarrando
na minha pequena mala de tiracolo castanha à pressa enquanto via a Jade abrir a
porta e a dirigir-se a sete pés para o elevador.
Apesar de não ter muita vontade, ela e o resto do pessoal
tinha conseguido convencer-me a ir com eles à pequena festa que o Three Hills
ia fazer para comemorar o fim das aulas e o tão desejado início das férias de
Verão. De certeza que estaria completamente animada e ansiosa por ir, se não me
sentisse ainda bastante frustrada e irritada com a forma como a relação entre
mim e o meu namorado estava a correr. Eu bem que suspeito que ele ainda gosta
da melhor amiga, e na volta só está a usar-me para esquecê-la...Não seria a
minha primeira vez a ser usada por alguém em que depositem a minha confiança de
forma tão cega, mas óbvio que, mesmo assim, andava a cruzar os dedos para estar
enganada.
Com este pensamento a passar-me pela cabeça não consegui
evitar o suspiro que escapou pelos meus lábios, chamado a atenção da Jade, que
me olhou com compaixão e compreensão ao perceber que eu devia estar bater outra
vez na mesma tecla interiormente. Eu bem que queria deitar tudo cá para fora
verbalmente outra vez, nem que fosse para as paredes, mas não seria por fazer
isso que as coisas iriam mudar para melhor, e ela já estava bem farta de me
ouvir falar sobre a forma como o Matt tem agido comigo ultimamente.
Se há algo a que já me habituei, relativamente aos meus
relacionamentos amorosos, é que, misteriosamente, eles mal duram. Sempre pensei
que a razão de tal acontecer era culpa minha devido à minha forma de ser e de
agir, por isso durante uma pequena parte da minha adolescência dei por mim a
tentar tornar-me na “rapariga ideal” para qualquer rapaz, aquela que não faz
dramas, que não age como uma criancinha, que compreende e é doce e querida em
todas as alturas, até mesmo naquelas circunstâncias em que uma rapariga tem
todo o direito de ser ciumenta quando vê o seu homem agarrado a uma suposta
amiga. Claro que ao tentar ser assim acabem por amadurecer em certos aspectos, mas
felizmente que não demorou muito até se tornar tão claro como água que o
problema definitivamente não era meu, mas sim dos meus ex’s. Na verdade,
aqueles otários nunca gostaram realmente de mim. Uns andaram comigo porque
queriam apenas saltar-me para a espinha, se bem que na altura era demasiado
ingénua para perceber ou querer admitir isso. E outros gostavam de mim, mas não
ao ponto de quererem a relação séria que eu queria ter com eles. Realmente,
quem me dera ter sorte no amor, pelo menos só um cadinho… A Jade, felizmente,
demasiado ocupada em sair disparada do elevador para ir para porta do edifício
onde vivo, não reparou no décimo longo suspiro que eu deixava escapar esta noite,
senão de certeza que ela iria perguntar-me em que raio estava eu a pensar agora e assim
que ela fizesse a pergunta, bem que podia apostar que nunca mais iria ouvir o
fim do quanto depressiva eu estava a sentir-me.
Respirei fundo, uma, duas, três vezes, até ter
minimamente a certeza que tal assunto como a minha vida amorosa não voltava a
passar-me pelos neurónios tão depressa. Este meu
mau hábito de pensar sobre coisas já mais do que sabidas e inúteis era difícil
de largar, e definitivamente não ajudava em diminuir a minha frustração.
“Hey! Estava a ver que nunca mais se despachavam, mais um bocado e já estava a ligar-vos.” Disse o Cade, que nos esperava no fim dos
pequenos degraus da porta de entrada do edifício.
“Desculpa, aqui a Miss Perfeição teve de mudar de
vestido umas três vezes antes de conseguir decidir-se.” Respondeu a Jade,
olhando-me de lado após ter revirado os olhos à tão previsível queixa sobre a
nossa demora.
Ouvi o Cade a rir-se e a responder ao pequeno comentário
dela sobre mim enquanto o meu olhar fixava-se no outro lado da rua, para a
escuridão que preenchia as pequenas e estreitas ruas entre os outros prédios.
Não conseguia explicar porquê mas desde o início desta semana que sentia-me a
ser observada quando saia para ir ter com a Jade ou para deitar o lixo fora nos
contentores que se encontravam no lado esquerdo do meu prédio, ao fundo da rua.
Eu sou daquelas pessoas que até gosta do escuro, não após ter visto um filme de
terror capaz de me fazer pôr a almofada à frente da cara e ter vontade de fugir
a mil pés, mas achava-o agradável e relaxante até ao início desta semana quando
comecei a jurar que via a sombra de alguém numa daquelas ruas ou alguma espécie
de movimento na escuridão. Cada vez que virava as minhas costas sentia os
pequenos cabelos no meu pescoço a levantarem-se como se fosse um alerta de que
havia, muito provavelmente, um par de olhos em cima de mim. E agora, neste
preciso momento, estava a sentir essa sensação outra vez.
Esfreguei os meus braços para tentar afastar esse estranho
feeling e voltei a virar a minha atenção para os meus dois bons velhos amigos.
“ E que tal se nos puséssemos a andar daqui pra fora? É
da maneira que não chegamos ainda mais atrasados.” Disse, fazendo um pequeno
sorriso para acompanhar o meu tom sarcástico.
“Bem, aparentemente, hoje não és a única pessoa a estar
atrasada, o Thomas acabou de mandar-me uma mensagem a dizer que só agora é que
conseguiu sair de casa, e pediu para esperarmos por ele aqui.”
Ergui uma sobrancelha ao ouvir tal coisa. O Thomas e a
Victoria normalmente eram os primeiros a chegar aos sítios onde combinávamos
encontrar-nos todos. Problemas no paraíso, está-se mesmo a ver. Aqueles dois
juntos pareciam lapas, e agora ele ia connosco para o Three Hills em vez de ir
apenas com a Victoria…algo me diz que vou ter companhia para afogar as mágoas
no álcool.
Dez minutos mais tarde o Thomas chegou e pusemo-nos a caminho para o bar, que ficava apenas a 4 blocos do meu prédio. Quando chegámos
não havia sinais da Victoria, mas o Chad, a Lily e o Patrick já lá estavam,
sentados numa das mesas ao fundo, com bebidas nas mãos e a conversar
animadamente. O nosso grupo era praticamente todo casalinhos, o Chad e a Lily
já namoravam praticamente há quase seis meses, o Thomas e a Victoria estavam quase
a fazer três anos de namoro, o Patrick era alguém que muito recentemente se
juntou ao nosso grupo mas já havia uma certa química entre ele e a Jade. O Cade
e eu nunca namoramos um com o outro e nunca iremos, somos praticamente como
irmãos, mas muitas vezes já ouvimos indirectas e directas de que éramos o único
parzinho que faltava para “completar o círculo” e todas essas vezes eu e ele
trocávamos um olhar e riamos ou gozávamos com a situação.
Verdade seja dita que chegou a haver uma altura entre nós
os dois em que consideramos a hipótese de algo mais do que uma grande amizade,
mas acabamos por chegar à conclusão de que era mesmo impossível, porque
gostávamos um do outro apenas como irmãos. Bem…pelo menos eu só o conseguia ver
como um bom e velho amigo.
Olhei em redor enquanto me dirigia ao balcão para pedir a
minha vodka preta com Redbull, e reparei que o bar estava cheio de gente da
nossa escola, nada de admirar claro, mas o que os meus olhos procuravam mesmo
era o Matt, mas nem eles nem o seu grupo de amigos estavam por aqui, pelo menos
por agora.
Enfim, passei o resto da noite a dançar e a conversar
muito, e quando chegou a altura de irmos para casa, estava definitivamente
demasiado estafada para moer a cabeça sobre o quer que seja. E até tinha
realmente me divertido, o que deixou em mim uma sensação agradável de
satisfação.
De caminho para casa, com a cabeça um pouco leve do
álcool e entretida na conversa com a Jade e o Thomas, só reparei no tal movimento
na escuridão quando abri a porta de entrada do meu prédio e dizia adeus aos meus
amigos por cima do meu ombro, só que desta vez não dava para ter dúvidas de
estar a ver coisas ou não, porque no momento em olhei para a tal estreita rua,
um carro passou na estrada, iluminando-a e deixando-me ver um vulto, uma pessoa, com uma espécie de camisola preta com capuz. Não consegui ver-lhe a
face, mas pela altura e aparente estrutura óssea tratava-se definitivamente de
um homem. Assustada pelo facto de a minha sensação de ter andado a ser
observada ser, aparentemente, tudo menos ilusória, apressei-me com a minha
despedida e entrei no meu prédio, correndo na direcção das escadas, que
felizmente seriam poucas para subir uma vez que os meus pais fizeram a boa
escolha de viver no segundo andar.
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