Capítulo 2
Eram duas da manhã e ainda não tinha conseguido pregar
olho. Não conseguia deixar de olhar para a janela e para a porta do meu quarto
ao mesmo tempo que ficava atenta a qualquer tipo de som que não me fosse
familiar. Assim que entrei em casa, depois de correr escadas acima que nem uma
maluca enquanto tinha o coração nas mãos e suores frios a formarem-se sobre a
minha pele, pensei seriamente em contar aos meus pais o que se tinha passado,
mas essa ideia desapareceu tão depressa quanto surgiu assim que no segundo
seguinte senti o meu telemóvel a vibrar no meu bolso das calças e vi que se
tratava de uma SMS de um número desconhecido a dizer: “Mantem a boca fechada,
decerto não queres envolver os outros na nossa pequena diversão…”
Nunca me senti tão assustada e insegura em toda a minha
vida, isso é certo. Pensei nos meus dias nestas duas últimas semanas e tenho a
certeza que não me cruzei ou falei com alguém desconhecido, por isso, provavelmente,
devo conhecer este psicopata, agora a questão é quem é ele?
Voltei a virar-me na cama, com a mesma atenção e cautela
que não largava o meu sistema nervoso desde que chegara a casa. A minha grande
vontade era sair a correr do meu quarto e ir ao dos meus pais para contar tudo,
mas aquela mensagem apesar de vaga tinha sido extremamente clara, se da minha
boca escapasse sequer uma palavra sobre isto, os meus pais ou os meus amigos,
ou ate mesmo eles todos, iriam sofrer por minha culpa, e eu não queria
arriscar. Eu podia contar e os meus pais ligavam logo para a policia, mas tal
como o psicopata sabia o meu numero e onde eu vivo, é provável que também saiba
onde os meus amigos vivem e tenha os números deles, e também não vou riscar a
hipótese de estar sobre escuta…vou-me manter calada e pensar melhor sobre o
assunto, isto se não for raptada esta noite ou morta assim que por os pés fora
de casa.
“Agora estás a ser paranóica Reyna” pensei, mas nunca é
demais ser cuidadosa e pensar em todos os cenários possíveis.
Observei o meu despertador marcar 04:17 e foi nesse
momento que comecei a apagar-me como uma luz, as minhas pálpebras a ficarem
cada vez mais pesadas e o meu corpo a relaxar contra a minha vontade até que,
finalmente, caí num sono profundo.
****
“Anna, onde é que meteste a chave do mercedes?”, Ouvi o
meu pai dizer em plenos pulmões para a minha mãe o conseguir ouvir, fosse qual
fosse a divisão da casa em que ela estivesse.
Dei mais uma volta na cama, com os lenções quase
arrancados e com a minha almofada no chão. God knows, as voltas que eu devo ter
dado durante a noite para ter a cama no estado em que estava.
Pisquei os olhos mais umas quantas vezes e olhei para o
meu despertador. Já eram duas da tarde e de certeza que tinha mensagens da Jade
e do resto do pessoal a perguntar por planos para hoje. Com um longo e grande
suspiro levantei-me da cama e dirigi-me aos zing zangs para a casa de banho com
a esperança de que um refrescante banho fosse o suficiente para fazer a cara de
zombie, que tinha de certeza, desaparecer.
Entretanto, enquanto água meio quente e meio fria pode
fazer uma pessoa acordar e relaxar, não pode lavar do cérebro os problemas ou
fazê-los desaparecer. Por agora ia
começar a andar com o convenientemente prestável gás pimenta que o meu pai
demasiado protector me deu quando fiz dezasseis anos, para quando fosse sair à noite…
e talvez acrescente uma pequena navalha, nunca se sabe.
“Reyna, filhota, estás acordada?” Perguntou-me a minha
mãe, dando uma pequena batida na porta antes de abri-la um cadinho para
espreitar.
“Bom dia, mãe” disse enquanto calçava umas sandálias, já
quase despachada para ir ter com a Jade, que se tinha dado ao trabalho de me
ligar umas quatro vezes e mandando duas SMS, praticamente com o mesmo contexto,
por volta das onze.
“Bom dia. Eu vinha-te acordar, tens o Cade na sala à tua
espera.” E com isto fez um pequeno sorriso e fechou a porta.
Pus rapidamente o meu telemóvel e chaves de casa dentro
da minha pequena mala e fui para a sala, onde o Cade se encontrava sentado no
sofá, com dedos das mãos entrelaçados e uma expressão muito séria. Um pequeno
alarme na minha cabeça começou a dar sinal longo no segundo a seguir. Obvio que
a primeira coisa que me veio a cabeça foi que o psicopata também tinha entrado
em “contacto” com o Cade, mas então lembrei que antes disso havia os problemas
que ele tem andado a ter em casa. A mãe dele começou a beber e ultimamente tem
gritado com o pai sempre que este chegava a casa. Para mim foi difícil de
acreditar, uma vez que os pais dele sempre me pareceram o casal perfeito,
sempre muito apaixonados, simpáticos e hospitaleiros, por isso foi preciso ver a
senhora Montgomery começar aos berros e a partir tudo o que estivesse ao seu
alcance assim que o pai do Cade chegou a casa à meia-noite numa sexta-feira…Nessa
altura inventei que tinha que ir para casa, que a minha mãe já estava a minha
espera e voei dali pra fora, mas não sei levar o Cade comigo.
Fechei os olhos para parar a recordação daquele dia e
sentei-me lentamente ao lado dele, pondo a minha mão sobre o seu ombro de forma
a dizer-lhe silenciosamente que o queria reconfortar. Eu nunca fui e,
provavelmente, nunca serei boa nisto de conforto físico e verbal. Os meus pais
discutem todos os dias, e depois há outras coisas na minha família que me deixam
quase sem sanidade, mas nunca me atrevi a falar sobre tais assuntos com quem quer se que seja...Bem a não ser com aquela certa pessoa... Mas tirando essa excepção, acho que posso dizer que tenho o mau hábito de grande parte das vezes guardar as coisas para
mim e de sofrer em silêncio, por isso quando se trata de confortar os outros
acabo por não ter a certeza do que fazer porque eu nunca fui confortada por
alguém, pelo menos não no que toca a assuntos familiares.
“Hey buddie, o que se passa?” Perguntei numa voz calma e
meiga, enquanto observava-o a encostar-se no sofá e virar a sua atenção para
mim. Ele tinha os olhos com aquele ar de quem estava prestes a chorar, com muita tristeza escondida neles. Não sei o que me deu, mas
estiquei os meus braços na direcção dele e abracei-o enquanto dava-lhe leves
festas nas costas e dizia coisas como “Tem calma, respira, seja o que for que
se passa, tudo vai ficar bem.”
Ficamos assim por um bocado, comigo a tentar encontrar
palavras encorajadoras que pudessem fazê-lo sentir-se melhor, e ele agarrado a
mim como se eu fosse a sua linha de salvamento, deixando-me seriamente
preocupada. Passaram-se mais uns minutos até que Cade finalmente encontrou
forças e a calma suficiente para explicar-me o que se tinha passado, e tal como
eu suspeitava, tinha a ver com a mãe. Desta vez ela tinha ido longe de mais,
até eu não queria mesmo nada acreditar no que ouvia…
“Ainda custa-me a crer que ela faria isso…” Comentei,
respirando fundo e também encostando-me ao sofá.
“Pois, a mim não…Ela tem andado maluca nestes últimos
tempos, e para mim isto foi a gota de água, eu já não aguento mais Reyna, vê-la
a atirar as roupas dele para o corredor e dizer que o queria fora de casa ainda
hoje… Só me apetece ir para bem longe disto tudo, sabes? Não quero ficar e ver
a minha vida a dar uma volta de 180º, não quero ver os meus pais separarem-se,
não quero ver a minha mãe ficar ainda mais louca…”
Nem um psicólogo o podia ajudar quanto mais eu, problemas
familiares são aquele tema em que temos de ser nos próprios a aprender a lidar
com a situação e como aguenta-la sem perdermos a cabeça. A única coisa que
posso fazer para é ouvi-lo, aconselhá-lo e ajudá-lo a distrair-se dos problemas
que o rodeiam, e é exactamente isso que tenciono fazer, mas não deixo de
sentir, de pensar, que o que posso fazer é mesmo muito pouco e que eu deveria
conseguir fazer muito mais.
“Talvez a tua mãe não esteja propriamente a ficar louca,
se calhar tem razões para estar a agir nesta maneira…Até agora a única coisa
que me vem à cabeça é a possibilidade de o teu pai andar a trai-la e ela ter descoberto, por isso é que tem agido assim…Mas na minha opinião, se
quiseres saber, eu acho que devias deixá-los entenderem-se. O que se anda a
passar é um assunto entre eles…É claro que a decisão e atitudes que eles
tomarem vão afectar-te, mas é a vida deles, por isso o mínimo que podes fazer é
tentar fazer vista grossa, não pensares muito no assunto e deixares andar, pois
eventualmente as coisas vão tornar-se mais toleráveis com o tempo. É como
dizem, depois da tempestade vem a bonança.” Disse enquanto olhava-o nos olhos e
via a atenção que ele dava ao que eu ia dizendo, como se estivesse seriamente a
ponderar se eu tinha razão no que dizia ou não.
“Entretanto, que tal se fossemos ao cinema, finalmente
saiu um filme que eu estava há séculos à espera que saísse! Eu já tinha coisas
combinadas com a Jade, mas que se lixe. Tu bem que estas a precisar de uma boa dose
de riso.”
Ele suspirou, relaxou os ombros e então levantou-se do
sofá, com um sorriso nos lábios que contrariava o que os olhos expressavam, mas
pelo menos estava a tentar.
****
“E aquela parte em que ele entra no quarto deles e pensa
que eles os dois estão numa de S&M? Só a cara que ele fez!” Relembrava-me
ele, enquanto saímos pelas portas da sala de cinema a rir às gargalhas que nem
uns perdidos.
“Essa foi a melhor de todas! Eu quase que tive de ir a
casa de banho de tanto rir.”
E continuamos a rir durante um belo bocado, apesar de as
pessoas à nossa volta ficarem a olhar como se fossemos uns maluquinhos, mas eu não
quis saber. O Cade estava finalmente a divertir-se.
“Ah, devíamos fazer isto mais vezes.” O riso morreu nos
meus lábios e o alarme voltou a soar na minha cabeça. O tom de voz que ele usou para dizer
aquilo…the shit got serious…
“Sim, se bem que quantos mais melhor.” Disse fazendo um
grande esforço para não parecer tão séria. Aquelas palavras tinham sido algo
mais do que um simples alívio por estar longe dos problemas, tenho a certeza,
eu conheço aquele tom…
“Eu sei, mas só nós os dois também é bom. Mesmo muito bom...”
Murmurou, focando o olhar no chão. Ele estava com receio de olhar-me na cara,
sobretudo porque sabia que eu não sou capaz de lhe dar a reacção e a resposta
que ele quer. Nós somos como irmãos um para o outro, mas o Cade sempre sentiu
algo mais, ele próprio admitiu isso há um mês atrás antes de eu ter começado a
namorar com o Matt. Na altura não pude fazer nada se não dar-lhe tampa e tentar
manter a nossa amizade, mas ultimamente cenas como estas de “ser só nós os dois
é melhor do que estar com um monte de gente” têm acontecido com cada vez mais frequência.
Fico sem outra opção se não desviar o assunto ou afastar-me
de forma discreta, por muito que odeie ter que agir dessa maneira.
Olhei para o relógio no meu pulso e preparei-me para
dizer as inocentes palavras que, quer eu queira, quer não, iam magoá-lo.
“ Cade pára, por favor.” Pedi, numa forma fria e firme
enquanto na verdade por dentro sentia-me como se fosse a pior pessoa existente
naquele momento, uma autêntica cabra e não menos do que isso. “Já está a ficar
tarde. É melhor irmos andando, o último autocarro de volta deve estar quase a
chegar.” Olhei para ele e vi o quão triste e magoado ele tinha ficado antes de
sentenciar-me a fazer uma viagem de volta para casa num ambiente de silêncio
constrangedor, a amaldiçoar-me a mim mesma por o ter magoado, por
não conseguir sentir o mesmo por ele e sobretudo por não saber o que fazer para
que ele não olhasse para mim com aqueles olhos castanhos a mostrar a dor pela
qual eu era agora uma das causas.
“Desculpa…” Disse quase como num suspiro, ficando na
dúvida se ele tinha-me ouvido ou não.
“Pelo quê? Eu sei que só me vês como um amigo,
se bem que sempre tive uma pequena esperança que isso mudasse quando te disse
como me sentia. Enfim, a responsabilidade de eu estar assim não é tua, por isso
tira esse ar de culpa.” Engraçado como o que ele disse poderia ter ajudado a
sentir-me menos mal comigo mesma se o tom usado tivesse sido mais amigável e
menos ressentido, mas isso já seria pedir muito…
“Como é que vais
fazer em relação a teres de voltar para casa? Eu sei que a última coisa que
queres fazer é ter que voltar para lá. Ouve, se quiseres podes
ficar a dormir na minha sala e convido a Jade e o Thomas para passarem lá a
noite. Fazemos uma espécie de mini-festa. O que achas?”
“Eu acho que vou mandar um SMS ao Thomas a ver se posso
dormir na casa dele hoje. Não leves a mal Reyna, mas eu preciso de estar
sozinho, e a tampa que me deste a bocado…também vou precisar de espaço para
engolir isso. ”
Não pude fazer mais nada a não ser concordar e permanecer
calada o resto da viagem. Quase que me apetecia dizer que esta semana não podia
correr pior, quanto mais o resto deste dia, mas na verdade isso era tudo menos
impossível…